Por Waldemir Cambiucci
Com o passar dos anos, temos a oportunidade de olhar a história de um modo diferente, fazendo comparações, agrupamentos e insights interessantes, que durante os dias passados era impossível perceber. E assim, chegamos a janeiro de 2026! Os últimos 6 anos foram intensos!
E se olharmos mais para trás, entre 1970 e 2025, cada década teve uma arquitetura de TI relevante assim como diferentes componentes de infraestrutura e elementos de software que formaram nossos projetos, aplicações, discussões, arquiteturas e sistemas. Tudo isso foi construindo as tecnologias seguintes, num verdadeiro carrossel de evolução continuada.
E assim vimos mainframes (eu não vi 😊), client/server, redes, LANS, WANs, web services, json, xml, serviços, dockers, machine learning, GenAI e Quantum, todos deixando suas marcas e lembranças.
Então, para iniciar 2026 e além, que tal fazer um rápido olhar sobre essas arquiteturas que nos trouxeram até aqui!? Claro, como sempre digo, essa é uma história parcial e aproximada! Mas já aviso: essa viagem pode ser nostalgicamente quântica! 😊

1970 — Arquitetura monolítica, mainframes e centrais de dados
Os anos 1970 foram a era das arquiteturas monolíticas altamente centralizadas, dominadas por mainframes que ocupavam salas inteiras e exigiam ambientes controlados, refrigeração dedicada e equipes especializadas. O processamento era caro, escasso e tratado quase como um recurso estratégico nacional dentro das grandes corporações. Aplicações críticas como folhas de pagamento, contabilidade, controle financeiro e inventário rodavam em batch, muitas vezes durante a madrugada. Os chamados CPDs ou centrais de processamento de dados eram quase solo sagrado. Poucos tinham acesso!
Curiosamente, foi nessa década que nasceram conceitos que ainda sustentam sistemas modernos: transações, controle de concorrência, redundância, tolerância a defeitos, two phase commit, árvore de falhas, resiliência e recuperação. O mercado financeiro, por exemplo, construiu aqui as bases de seus sistemas transacionais, como transações ACID – Atomicidade, Consistência, Isolamento, Durabilidade e os icônicos Monitores Transacionais, que foi inclusive motivo da minha dissertação de mestrado 🙂
E sim, cartões perfurados, COBOL e terminais “burros” fazem parte do imaginário dessa época, mas também a noção de que estabilidade e previsibilidade vinham antes de qualquer inovação.

1980 — Computadores pessoais, revolução dos 8/16 bits e redes
Na década de 1980, a computação começou a sair do “porão” e ir para as mesas dos usuários, entusiastas, hobistas e dos novos desenvolvedores de plataforma baixa (a alta ainda era associada ao mainframe). PCs de 8 e 16 bits, como Apple II, IBM PC e seus clones, levaram poder computacional diretamente ao usuário final. Surgia assim uma mudança cultural profunda: as pessoas passavam a interagir diretamente com a tecnologia, sem intermediários.
Redes locais começaram a conectar essas máquinas, ainda de forma limitada, mas suficiente para criar os primeiros ambientes colaborativos. Planilhas eletrônicas, editores de texto e softwares de automação de escritório transformaram a produtividade individual e organizacional.
Um insight importante dessa década é que a descentralização não foi apenas técnica, mas social: a TI deixou de ser exclusividade de especialistas e passou a moldar o trabalho cotidiano. E nesse tempo, eu fazia meu primeiro contato com os maravilhosos CP 500 e CP-400 Color II. Para nunca mais parar! 🙂

1990 — Cliente-servidor, Web e redes globais
Os anos 1990 consolidam a transição para arquiteturas cliente-servidor e inauguram a era da internet comercial. Bancos de dados corporativos ganharam protagonismo, enquanto HTML, Web e WWW criaram um novo paradigma de acesso à informação. LANs, WANs e MANs conectaram empresas, cidades e países, formando o embrião do tecido digital global. E ainda foi o tempo do Netscape, do Internet Explorer, do Windows 95, Visual Basic 3.0, Turbo Pascal, etc. Quem não se lembra de uma barra de ferramenta cheia de .VBXs?
Essa década marca um ponto de inflexão importante: a informação deixa de estar confinada dentro das organizações. Interoperabilidade e conectividade tornam-se princípios arquiteturais centrais. APIs ainda não eram um conceito formalizado, mas integrações ponto a ponto já antecipavam a necessidade de sistemas conversarem entre si. É aqui que nasce a percepção de que o valor do software cresce exponencialmente quando conectado. Quem não se lembra do filme “The Net” com a Sandra Bullock?

2000 — SOA, Solutions Architecture, ESB, EDI e Serviços
Com a virada do milênio, a complexidade explode. Empresas acumulavam sistemas legados, aplicações distribuídas e parceiros externos. A resposta arquitetural veio na forma de SOA (Service-Oriented Architecture) e dos Web Services. WSDL, XML, SOAP, REST, Enterprise Service Bus (ESB), EDIs e pipelines de ETL, que passaram a dominar o vocabulário técnico. Quem nunca esteve envolvido em algum projeto de SOA, ESB, EDI, barramentos e serviços?
O grande insight dessa década foi a mudança de mentalidade: sistemas deixam de ser aplicações isoladas e passam a ser serviços orquestrados. Integração vira disciplina central, não exceção. Cadeias de suprimento, bancos e governos passam a operar ecossistemas digitais interconectados. Embora muitas implementações tenham sido pesadas, com serviços pouco utilizados ou grandes desafios de padronização ou latência, o legado conceitual foi duradouro: pensar arquitetura como composição de capacidades.

2010 — Microserviços, containers, dados e automação
Os anos 2010 trazem uma ruptura clara com o passado. Microserviços substituem grandes barramentos centrais, reduzindo o acoplamento e acelerando a evolução dos ssitemas. Containers, automação de infraestrutura, GitHub, DevOps e SecOps encurtam drasticamente o ciclo entre ideia e produção. Em 2013, era lançado o projeto Docker com a tecnologia de containers e a padronização da distribuição de aplicações tinha início.
Ao mesmo tempo, dados tornam-se o novo ativo estratégico. IoT amplia a coleta no mundo físico, enquanto Machine Learning, Deep Learning e Reinforcement Learning introduzem sistemas capazes de aprender com o comportamento.
Um insight marcante dessa década é que arquitetura passa a ser tanto organizacional quanto técnica: times pequenos, autônomos e orientados a produto tornam-se parte do design do sistema.

2020 — AI-First, sistemas agênticos e confiança
Nos anos 2020, que ainda não acabou, a Inteligência Artificial deixa de ser um componente adicional ou histórico e passa a ser o princípio organizador da arquitetura. E entre pandemia, lockdown e retorno aos escritórios, vimos a consolidação do trabalho remoto, sistemas de colaboração online, automação de processo anywhere, anytime e a adoção do home-office e do hybrid work. Em novembro de 2022 surgia o fenômeno do ChatGPT e o mundo nunca mais foi o mesmo. Entre ChatBot e Vibe Coding, a nossa interface com sistemas de computação transitou do teclado para a voz e a linguagem natural.
Vimos o crescimento de arquiteturas AI-First, GenAI e sistemas agênticos capazes de raciocinar, planejar, dialogar e agir. A automação cognitiva avança do suporte à decisão para a execução de tarefas complexas. E claro, ainda temos muito trabalho nesse campo, mas as bases já estão formadas.
Ao mesmo tempo, temos visto crescer a consciência sobre riscos. Responsible AI, segurança de modelos, ataques por prompt (ou prompt injection), vieses algorítmicos, criptografia pós-quântica e quantum-readiness entraram na agenda estratégica e ainda ganham mais força a cada dia.
O grande insight da década até aqui tem sido esse: confiança se torna tão importante quanto desempenho de modelos.
Não basta a IA funcionar: ela precisa ser auditável, segura e governável em escala. Essa já é uma tendência para 2026 e os próximos anos.

2030 — Arquiteturas híbridas AI + Quantum
Aqui, vamos apenas estimar. Mas podemos dizer que a década de 2030 aponta para um novo paradigma: arquiteturas pós-clássicas, combinando IA avançada com computação quântica. E talvez esse movimento já tenha começado.
Não se trata de substituir sistemas existentes, mas de integrá-los com recursos quânticos como aceleradores especializados para otimização, simulação e tomada de decisão sob incerteza.
Essas arquiteturas serão híbridas por natureza, clássicas e probabilísticas, quânticas e cognitivas, operando como sistemas de decisão de altíssima complexidade, gerando dados de alta acurácia para simulações e exploração científica, impossíveis de serem obtidos com computação tradicional. Setores como logística, energia, clima, química e ciência devem ser os primeiros beneficiados.
O insight central é claro: o futuro não será quântico ou clássico, mas híbrido, exigindo arquiteturas combinadas entre inteligência artificial e aceleradores quânticos, capazes de acelerar a resolução de problemas complexos.
Colocando tudo em perspectiva
A figura a seguir ilustra de forma consolidade essas diferentes fases de TI como vivemos.

De fato, as tecnologias evoluem ao longo dos anos, criando oportunidades para sistemas, aplicações e negócios. Para facilitar o uso e referências futuras, segue aqui as legendas que utilizei em cada década:
1970
- Arquitetura monolítica, mainframes e centros de dados
1980
- Computadores pessoais, mercado dos 8 bits, TRS-80, SINCLAIR, MSX, PC-XT, PC-AT, redes de computadores, downsizing
1990
- Arquitetura cliente-servidor, workgroups, bases de dados, HTML, WEB, RPC, WWW, LANs, WANs, MANs, Adoção da POO Programação Orientada a Objetos, Stored Procedures, SQL Server
2000
- Arquitetura SOA, Web Services, WSDL, XML, JSON, REST, ESB, EDI, ETL, IOT, ARDUINO, Frameworks de Desenv., Building Blocks, Software Factories, Cloud Computing
2010
- Arquitetura de microserviços, machine learning, DL, RL, containers, IOT em escala, DevOps, SecOps, Github, Gitlab, FinOps, IaaS, PaaS, SaaS,
Big Data
2020
- Arquitetura AI-First, GenAI, Sistemas Agênticos, Edge-AI, Responsible AI, AI-Safe, Post-Quantum Cryptography, Quantum-Readiness, Quantum-Safe
2030
- Arquiteturas híbridas AI+Quantum, sistemas Agênticos Autônomos, Explainable AI, Criptografia Quântica, Redes Quânticas, Quantum Internet, Quantum AI
Olhando além
Ao avançarmos para a próxima década, 2030 e além, torna-se evidente que o futuro da computação não será definido por uma única tecnologia isolada, mas pela convergência entre múltiplos paradigmas. Isso tem sido a realidade até aqui, em diferentes indústrias. Em especial para os próximos anos, grandes desafios irão demandar maior poder computacional, maior capacidade de tratamento de problemas complexos e melhor qualidade sobre inferências e otimizações mais realistas.
Assim, podemos esperar arquiteturas híbridas que integram Inteligência Artificial, computação de alto desempenho (High Performance Computing – HPC) heurísticas clássicas e computação quântica, consolidando um caminho pragmático para problemas que permanecem intratáveis por abordagens tradicionais, especialmente nos domínios de otimização combinatória, fatoração, simulação e tomada de decisão sob incerteza.
Nesse contexto, os sistemas agênticos autônomos e orquestrados emergem como uma camada operacional crítica. Mais do que agentes isolados, estamos falando de ecossistemas capazes de cooperar, negociar, aprender e executar objetivos complexos em ambientes dinâmicos, reduzindo a dependência de intervenção humana contínua. A capacidade de coordenação e governança desses agentes será tão importante quanto sua inteligência individual. Vale lembrar que colocar um agente autônomo sobre ambientes reais complexos ainda é um grande desafio hoje.
Paralelamente, a evolução dessas arquiteturas impõe uma mudança estrutural na forma como pensamos segurança. Infraestruturas pós-quânticas seguras deixam de ser uma preocupação futura e passam a ser um requisito imediato. Criptografia pós-quântica, identidade descentralizada e segurança concebida desde a arquitetura tornam-se elementos mandatórios para a proteção de sistemas críticos em um mundo progressivamente quantum-ready.
Por fim, a confiança passa a ser o eixo central de todo o ecossistema. Governança algorítmica e confiança computacional não podem mais ser tratadas como camadas externas ou mecanismos reativos. Explainability, auditoria contínua, compliance automatizado e controle ético precisam estar incorporados à própria estrutura dos sistemas, garantindo não apenas desempenho, mas legitimidade, transparência e responsabilidade em escala. E esses temas serão cada vez mais críticos para sistemas baseados em IA+Quantum em ambientes estratégicos. E sim, o futuro deve ser a convergência entre sistemas baseados em IA com aceleradores em Quantum.
Então é isso!
Em um tempo de tantas transformações, talvez 90% deste artigo ainda continue válido, pois fala sobre o passado! Para os outros 10%, não sei, o futuro está em contínua transição e pode mudar brutalmente ainda esse mês!
Mas a Natureza deve continuar quântica, então, eu continuaria apostando em um futuro com sistemas híbridos convergentes de IA+QUANTUM para grandes problemas da humanidade! E é aqui que espero estar!
Vamos acompanhar! Feliz 2026 e além! Até o próximo artigo! 🙂
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Fonte: AINews


